Votar: direito ou dever?

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Há gestos simples que carregam grandes significados.
Colocar uma cruz num boletim de voto é um deles.
Dura segundos, mas simboliza décadas de luta, coragem e uma enorme conquista.

Para quem, como eu, cresceu a ouvir as histórias de um país silenciado durante o Estado Novo, o ato de votar nunca pode ser apenas um direito — será sempre, acima de tudo, um dever moral.
Um dever para com os que sofreram sem voz, para com os que enfrentaram a censura e a repressão, e para com aqueles que ainda recordam a pobreza e a falta das liberdades…

Depois do 25 de Abril de 1974, milhares de portugueses votaram pela primeira vez. Votaram com lágrimas nos olhos, com a consciência de que aquele pequeno gesto era, afinal, o início de uma nova vida coletiva.
E é por isso que hoje, mais de 50 anos depois, devemos continuar a dar valor ao que foi tão difícil conquistar.

A responsabilidade que se perdeu

Mas a verdade é que muitos já não veem o voto como um dever.
E, honestamente, não posso dizer que não compreenda o porquê.

Os partidos políticos têm grande responsabilidade neste afastamento.
Durante anos, assistimos a campanhas cheias de promessas e a três anos seguintes de silêncio.
Pouco se faz para cativar o eleitor, para o ouvir ou envolver nas decisões locais.
A política perdeu o contacto com as pessoas — e quando isso acontece, as pessoas também se desligam da política.

Depois há o egoísmo crescente de uma sociedade centrada no “eu”.
Há quem encontre desculpas em tudo: nas ausências, nos emigrantes, nos horários, na falta de tempo, etc.
Mas votar é mais do que um ato logístico — é um ato de consciência.
Quando deixamos de votar, deixamos também de assumir responsabilidade pelo rumo que o nosso país toma.

Votar é escolher… ou deixar que outros escolham por nós

Cada voto é uma decisão sobre o futuro de todos, mesmo que pareça pequeno.
Votar é dizer “eu estou aqui”, “isto também me diz respeito” e “quero escolher”.
Quem se abstém, abdica dessa voz e entrega aos outros o poder de decidir por si.
E depois, muitas vezes, queixa-se das decisões que foram tomadas.

Votar é também um ato de empatia.
De pensar para lá do nosso conforto imediato, e lembrar que o voto ajuda a definir o país onde os nossos filhos vão crescer.
Mesmo quando nos sentimos desiludidos, votar é reafirmar que acreditamos que a mudança é possível — porque a democracia só vive se a alimentarmos…

O meu caminho e a minha coerência

Sempre votei.
Exceto nas eleições presidenciais, enquanto militar — por entender que não devia escolher quem seria, em última instância, o meu chefe. Foi uma decisão de coerência e respeito pela instituição que servia.
Depois de passar à disponibilidade, voltei a exercer este direito, agora também com o dever que o acompanha.

Tal como na vida de bombeiro, acredito que o compromisso com os outros é o que nos define.
Ser cidadão é, de certa forma, ser também bombeiro da democracia: proteger o que é de todos, mesmo quando poucos o fazem.

Mais do que um papel

Nas eleições autárquicas de 2025, o desafio volta a ser o mesmo: participar, escolher e acreditar.
Num tempo em que muitos preferem criticar em vez de agir, votar é o nosso modo silencioso de dizer que queremos fazer parte da solução.

Votar é mais do que um papel numa urna.
É um gesto que honra o passado e constrói o futuro.
Porque, no fim, a democracia não se mantém sozinha — precisa de cada um de nós, um voto de cada vez.

Mais importante do que EM QUEM, é o VOTAR!

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