O capacete não pode ter cor política

Fotografia da Assembleia da República, com todo o hemiciclo, aquando do debate do AE 2026. Blog do Eduardo Abreu.

Há temas que merecem silêncio, ponderação e respeito. E há outros que, de tão repetidos, se transformam em armas de arremesso.
Infelizmente, os bombeiros portugueses continuam a ser um desses temas — lembrados nas alturas convenientes, usados como bandeira emocional e esquecidos no momento de decidir o que realmente importa: as soluções.

Na última semana, durante o debate do Orçamento de Estado para 2026, assistimos mais uma vez à instrumentalização do nome dos bombeiros.
Entre discursos inflamados e frases de efeito, o que sobrou foi o costume: muito barulho, pouca substância.
O caso mais evidente veio da bancada do Chega, que procurou capitalizar a imagem dos bombeiros como símbolo de proximidade e sacrifício, sem apresentar medidas concretas ou propostas viáveis. Mas seria injusto apontar o dedo apenas a um partido — porque esta prática é, infelizmente, transversal.

Ao longo dos anos, todos os quadrantes políticos têm recorrido aos bombeiros como ferramenta de empatia, uma espécie de “atalho” fácil para conquistar a atenção pública.
Promessas são feitas, discursos inflamados são proferidos, mas quando chega o tempo de agir — de legislar, investir ou reformar — sobra o silêncio.
Os bombeiros não precisam de palmas no Parlamento. Precisam que os deputados visitem os quartéis, que conheçam as dificuldades reais, que ouçam os comandos e que percebam que este serviço está à beira da exaustão.

O problema não é falta de reconhecimento — é falta de ação.
Precisamos de um distanciamento político na Proteção Civil, de valorização profissional e de decisões técnicas tomadas com base na experiência de quem está no terreno, não nos cálculos de quem está atrás de uma bancada.
É preciso que os bombeiros sejam parte das soluções — não apenas figurantes no palco do populismo.

Como cidadão e bombeiro, acredito que este debate deve nascer de dentro — das corporações, das associações e das pessoas que todos os dias vivem a missão de proteger.
O capacete pode ser vermelho, amarelo ou preto… mas nunca deve ter cor partidária.
Porque servir não é uma bandeira: é um dever.

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